20/01/2015

O Vento



Talvez eu demore pra chegar no tema que quero abordar, mas chegarei, ou melhor, ele está presente nas entrelinhas, nas linhas, nas curvas e retas. Quero falar sobre espiritualidade, e falar nisso pra mim é o mesmo que falar de sentimentos, dos mais variados que possa existir. Sempre me considerei espiritualizada, questiono-me muito sobre esse assunto e todas as suas beiradas... quando os filhos chegaram trouxeram um "vento novo", forte, intenso, as vezes silencioso, mas quase sempre barulhento, ele venta meus cabelos, bate as minhas portas e janelas, ele me deu asas, quando ele é silêncio, eu faço vigia, vigio a vida e a minha alma, me pergunto: o que esse vendaval sopra dentro de mim? Descrever o que a gente sente pelos filhos é fácil, é sentimento conhecido, íntimo e interno... a maternidade, gentilmente, nos ensina a amar como nunca, ou diferente de antes, ser mãe é uma viagem que nos leva, em pouco tempo a sentimentos nunca antes experimentados. Não me iludo: nada é fácil,  a começar pelas relações: pai e filho, mãe e filho, pai e filha, mãe e filha, pai e mãe, filhos e filhos, homem e mulher, nós com eles, nós com nós mesmos e todos nós com todos os outros. Estamos aprendendo tudo isso juntos, no tempo que tem que ser, do jeito que tem que ser. A pessoa que vos escreve fica querendo tomar conta de tudo... e como dar conta dessa teia de sentimentos? São muitos fios, alguns se arrebentam, não tem como evitar, e que bom que se rompam, eles dão espaço para novos nascerem. E a espiritualidade o que tem com isso?  






A vida me deu de presente filhos tão especiais, que nem que eu viva mil anos poderei retribuir tamanha gratidão, avaliar o que eles sentem por mim e pelo meu marido é assustador, pois em cada olhar, cada palavra, cada pedido, cada sorriso e cada lágrima nos revelam a confiança que depositam na gente, os filhos quando crianças se jogam num abismo chamado pais, sem nenhum tipo de proteção, eles acreditam no que a gente fala e mais ainda: no que a gente faz. E pensam que sabemos tudo, que temos respostas para o que é "irrespondido", as vezes minha filha me diz: "tu é mãe, tu sabe o que é melhor pra nós". E o medo cresce... Eu falo muito, tenho a palavra como aliada, mas palavras escorrem, então tenho que dar vida ao que digo, é o tal do exemplo. Eles esperam tanto da gente...................... daí vem o desejo de ser uma pessoa melhor.





A ligação entre pais e filhos é tão estreita, tão de espera no outro, sinto que precisamos ser pais que dizem SIM pra vida, ser pessoas que autorizam o fluxo natural do mundo, precisamos nos permitir a evolução necessária para se viver bem e de bem com o outro, seja ele de que espécie for, seja qual for a sua escolha, precisamos saber respeitá-la, só assim nossos filhos respeitarão o UNIVERSO.










E as "escolhas religiosas"? Como tocar nesse assunto com as suas crias? Como ajudá-las a compreender a imensidão que é esse mundo repleto de deuses, crenças e "pecados"? Penso eu, devem ser feitas num caminho mais leve, com mais possibilidades, eu gosto de pensar que a espiritualidade é mutável, ou seja, não precisa ser intransigente, rigorosa, cheia de dogmas, de "ídolos", de ícones, de medos e de compromisso com a perfeição, prefiro a fé que liberta, que nos desprende, que nos ensina que o amor ao outro e o respeito por suas escolhas é que nos levará ao céu, não aquele céu imaginário, mas o "céu daqui", que aparece sempre que a gente, de verdade, quiser o vê-lo... é,  trata-se daquele vento que senti quando meus filhos chegaram, e já havia sentido o mesmo ventar em outras situações da minha vida, engraçado como eu amo o vento, talvez seja por isso que quando o sinto encho o meu peito com ele e tento espalhá-lo pelos cantos da minha existência, ouso em dizer: para alguns Deus é um evento, para mim: DEUS É VENTO. E sinto Ele por perto cada vez que me arrepio: com um "eu te amo"dito por um filho, com um olhar amoroso do marido, com um abraço demorado de mãe, irmão, amigo... de um desconhecido, sinto esse arrepio quando com afago os meus bichos, quando faço pão, quando bebo água, colho uma fruta, planto uma árvore, leio um livro (aqui  cabe uma conversa: minha filha uma vez me disse: "cada vez que eu pego um livro, ele fica vivo", isso é espiritualidade, é o sopro da vida), danço, canto, contemplo com tempo, sinto esse arrepio quando escrevo, quando pinto, desenho, quando dou de comer aos meus filhos, quando beijo meus sobrinhos, quando rezo, oro, medito... as vezes o sinto até no ócio, no osso... não amamentei meus filhos, mas quando os alimentei pela primeira vez, vi Deus, senti o vento soprar... por aqui nós dançamos do candomblé a música clássica, escutamos samba e ópera, e posso lhes afirmar o vento está nisso também, o arrepio se dá de dentro pra fora, essa é nossa espiritualidade: O ARREPIO DE DEUS DENTRO DA GENTE.







E as vezes o vento traz chuva, a melhor parte é se deixar molhar, ela lava, deságua em nós, descarrega (o descarrego), leva a chaga da dor, limpa, purifica, mas só faz isso pra quem deseja, essa chuva, esse vento são de fato divindades, mas não exigem veneração...
é desse Deus que falo para os meus filhos.





Demorei pra vir, nem sei quando virei novamente, mas deixo meu afeto, 
meu beijo e meu até outro dia! Bons ventos.









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