Vida Que Segue


Desapareci daqui e de outros tantos lugares... na verdade eu estava me reencontrando, aprendendo que sou limitada, como qualquer outro mortal. Perceber, mesmo na marra, que chegamos no nosso limite, nos salva. Saber-se limitada requer consciência, saber que é hora da "poda" para continuar viçosa e forte feito planta é passo importante pra se manter vivo. Eu me via crescendo frondosa pessoa: mãe, mulher, esposa, filha, irmã, tia, amiga, cuidadora de bicho, do lar, estudiosa, ilustradora, fotógrafa, artista, carpinteira, pedreira, escritora, ilustradora, psicóloga, deus, buda, alá... e lá, lá, lá, eu achava que dava conta de ser "tudo" e mais um resto de coisas e gentes, empurrando minhas necessidades físicas para um cantinho, daqueles que a gente visita só de ano em ano, só pra fazer a faxina no sótão. De repente, me vi rendida...o meu corpo me parou, ele havia me dito: "Estas dores que você sente são mensageiros. Ouça-os. Fechei minha boca e falei com você em uma centena de maneiras silenciosas." (Rumi) , mas você fingia-se surda.




Há uns cinco meses tenho sentido dores abdominais e nas costas, eu tomava um chá, um remedinho para a dor... não escutava meu corpo, ou melhor, não "tinha tempo" pra correr atrás disso, marcava e desmarcava minha médica na mesma frequência que as dores iam e vinham. Eis que nos últimos dias as dores se intensificaram, fui ao médico e nos meus exames constava;  imunidade  baixa e um início de anemia, medicada voltei para a rotina, confesso que mais devagar do que o normal, mas lá fui eu correr atrás das minhas coisas e das dos outros. Na semana que passou fiz novos exames e tomografias de urgência, as dores eram agora por todo o corpo, um mal estar geral... eu estava com uma infecção urinária bem séria (bexiga com sangue e secreção), além de uma gastrite que impedia de eu me alimentar e com os níveis dos minerais que nos deixam em pé quase zerados, por conta de tudo isso fui hospitalizada durante quatro dias, novos exames, muitos medicamentos, antibióticos na veia, 5 horas de potássio ,via veia também, por dia e soros para me reerguer.
Uma angústia tomava conta de mim durante o tempo que me vi internada num hospital, tantos pensamentos passavam pela minha cabeça enquanto sentia meu corpo doente... eu era uma ausência de mim mesmo, uma apatia estranha e desconhecida, era meu corpo pedindo ajuda para minha alma, ou o contrário, impossível ensurdecer diante de um pedido desses... era uma saudade de casa misturada com uma saudade de mim... forte que sou, sei que sou, acho que sou; felizmente me mantive numa vibração de amor, desses amores que curam tudo.
Há alguns dias em casa (aleluia mil vezes) me fortaleci, descansei, estou muito bem.  Não via a hora de voltar! Me ver numa cama, prostrada, logo eu que nunca paro, era muito torturador. Eu pensava o tempo todo na minha família, na bicharada, nos amigos, etc, etc e etc, respirava fundo, olhava pra dentro e sentia que o melhor naquele momento era pensar em mim (nada fácil, mas exercitando a gente consegue), eu precisava ficar bem, voltar bem. 
Escrevo tudo isso para compartilhar com vocês o aprendizado que tive com a dor, (a luz entra na gente pelas feridas abertas). NÃO HÁ COMO CUIDAR DOS OUTROS SE A GENTE NÃO SE CUIDAR, se a gente não olhar para o lado de dentro, para as mensagens “silenciosas” que a vida, o corpo e a alma nos mandam, era hora de eu parar um pouco, escutar as minhas necessidades, esqueci de me envolver comigo, ou melhor: só comigo, pois eu estou dentro de tudo o que estava emergida, mas no meu silêncio eu procura a escuta alheia ao invés da minha. Além de tudo o que tenho por fazer e viver eu corria feito doida atrás de doações para algumas pessoas, corria atrás de suprir as carências dos animais da rua, entre outras coisas... e não pretendo parar de fazer tudo isso, mas preciso fazer de forma equilibrada. Sempre ensinei para os meus filhos: “primeiro os outros”, a frase não é essa, o ensinamento não é esse. O aprendizado tem que ser: olhar atento para os outros e suas carências, mas sem fechar os olhos para nossas próprias necessidades e desejos! Eu não quero mais tempo ou que meu dia tenha trinta horas, eu só preciso respirar profundamente, encher meu peito de ar, administrar melhor minhas escolhas e respeitar meu cansaço, a responsabilidade do que faço com os meus dias é totalmente minha e não pretendo deixar de fazer nada do que amo fazer, eu sou assim: inquieta e curiosa, não são as "obrigações" e tarefas que me tornaram assim, sempre fui, quando não havia muito o que fazer, eu inventava, ainda invento. Falo sempre com Deus e por vezes eu e ele discutimos intimamente sobre esse meu jeito de ser, já cheguei pedir a ele que me acalmasse, ele disse (no ouvido da minha alma) que eu morreria. Vivo intensamente tudo o que me proponho a fazer, me entrego e sei que não conseguiria ser diferente, o que eu estava desconsiderando era que preciso de um tempo só pra mim, pra dar uma caminhada sozinha, voltar a meditar, fazer exercícios, dançar,  sair,  tempo pra eu me cuidar sem ficar pensando em todo o resto.








O processo de me enxergar, de me respeitar, de me permitir limitada, de me reconhecer fraca, de me entregar ao cansaço, de escutar o canto do meu peito e as batidas do meu coração e de me observar foi e é fundamental, a partir dele tenho desenhado mudanças corajosas e difíceis pra mim, aos poucos vou reconstruindo meu jeito de fazer as coisas, nunca poderia deixar de fazê-las, pois quando faço o que amo é como se um rio claro e puro corresse dentro de mim, me hidratando e regando minhas securas, o que preciso é aprender a canalizar melhor essas águas.
Quase morri de saudades dos filhos, nunca havia ficado longe deles tanto tempo e numa situação tão dolorida, quando os revi tive a certeza de que ficando perto, cuidando e sendo cuidada por quem amo tem um efeito banho de água límpida e AMOROSA sobre minha alma, como esse que ilustra essa postagem.




Estamos todos bem e mais fortalecidos, quero agradecer a minha família e a duas amigas-irmãs; Gabi e Simone que me ajudaram a passar por esse caminho, sei que o que passei é peso leve perto do que muitas pessoas passam em relação a falta de saúde, dores ou doença, dificilmente alguma coisa tira meu desejo de viver e de ser cada vez mais feliz, com infelicidades no meio, então gente querida: É VIDA QUE SEGUE.

 Grata total pelo carinho e respeito.