23/02/2015

Os Motivos



 


Ouvi tantos "porquês" quando decidimos desmatricular o Enzo, com seus quase três anos, da escola antes mesmo dele começar... Eu sempre saí correndo pela vida, uma corrida rápida-lenta: me demorava nas felicidades e me apressava nas dores, sempre fui muito livre, poucas coisas me prendem por muito tempo, mas hoje minha liberdade tem família, está mais responsável, porém não diminuiu de tamanho e nem de vontade. A minha relação com o “ser livre” é compartilhada, vivo em grupo, em sociedade, nos relacionando é que crescemos enquanto indivíduo. O fato é que sou meio “bicho do mato” em alguns aspectos e apesar de ser educadora, acho que me tornei uma “descolarizadora”. Gosta da escola, mas acho que ela tenta rasgar a fantasia de “bicho solto” que carregamos quando criança, penso que muitas vezes ela nos intoxica com suas fórmulas "curativas", sabe aquelas: "esse menino precisa consultar um psicólogo" ou "acho que um remédio faria ela prestar mais atenção na aula", essas toxinas que a gente vê sendo aplicadas todos os dias por aí, não posso colocar todas as escolas numa caixa só, mas percebo que há uma carência enorme de conhecimentos nelas: públicas e particulares. Gostaria de ver essa tal educação transformadora e libertadora que se costuma divulgar nas propostas pedagógicas da maioria das escolas. Sou absolutamente a favor dos limites, aqueles que ensinam até onde podemos ir, aqueles que ensinam onde devemos parar para deixarmos o outro ocupar o seu espaço. Mas sou totalmente contra o limite criador, aquele que diz: “o caule é marrom, a folha é verde e a flor vermelha”, acho que a criança que ouve essa definição passa a ver tudo cinza, sem vida e sem criatividade,  a criança não precisa dessas informações, afinal tenho visto muitos caules que não são marrons, folhas laranjas, amarelas, e de tantas outras cores ainda nem definidas por nós. 
Enquanto viver quero viver nessa andança do "ser livre" pra inventar a vida,  lições e crenças são coisas que prendem a gente por demais, nos engaiolam, e  nos desalargam, estreitam sentimentos e fazeres. 
Me pergunto:  a escola nessa formatação que temos rouba um pouco a liberdade da gente? penso que sim. Liberdade é a coisa que eu mais prezo nessa vida. Morro de medo da escravidão educacional e emocional. Sempre trabalhei com a educação, e quando sentia  que de alguma forma as pontas das minhas asas seriam quebradas, eu voava, tratava de fugir antes que me acostumasse a não voar mais, muitas vezes isso se deu, e eu precisava trabalhar, mas buscava outras alternativas, sempre me neguei a me "enquadrar no esquema" e claro que gente assim é vista como revolucionária e até meio louca... Mas sempre encontrei outros loucos pelo caminho e juntos fizemos projetos lindos. 








Os motivos de ter excluído, por ora, a escola da vida do Enzo, são muito particulares e escrevendo sobre eles não tenho nenhuma pretensão de convencer ninguém das minhas "verdades", esse depoimento talvez seja mais um desabafo do que qualquer outra coisa, escolhas são escolhas e só. São baseadas em conceitos e valores somente entendidos por você mesmo. Também não tenho a fórmula da "educação perfeita", acho que ninguém a tem, ela nem existe, ainda bem... Educamos de acordo com o que julgamos ser o melhor. Sem muitos medos e também não nos prendemos muito aos possíveis traumas que eles possam ter se baterem de frente com: a frustração, a dúvida, a perda... 








O Enzo é um menino muito ativo, com dois anos e três meses já identificava todo o alfabeto, os números até dez, desde então seu cognitivo foi se desenvolvendo naturalmente, aceita todos os estímulos propostos e vai além, se mostra um serzinho especial em cada nova atitude, em cada descoberta, altamente sensível e afetuoso, eu sei: é mãe apaixonada falando dos filhos, mas de verdade ele é um ser muito espiritualizado, iluminado e feliz. Assim como a Raquel também é. Eles são meninada que não cabe em si, diferente da gente que muitas vezes teve que ser o que nos cabia e só, quando adulto a gente quer logo acertar o texto todo, criança gosta mesmo é de rascunho, de escrever e apagar tantas vezes quantas forem necessárias, acho isso tão bom, sou meio assim ainda. Meus filhos estão aprendendo a ler o mundo, a ler as pessoas, a gente as vezes acha que já sabe fazer isso, e vamos direto ao resumo delas. Somos todos textos longos, sem espaço para resenhas mal formuladas. Tenho tentado ensiná-los a ver sem pressa, a ler o mundo com olhos cheios, há tanta leitura que nunca conseguiremos decifrar, por que a pressa? 






Nosso filho nos dá um trabalhão, é inteligente, carinhoso, querido, e também bastante inquieto e as vezes bem bravo, convencê-lo de não fazer algo é tarefa difícil. Amante da terra, da natureza e dos seus bichos, tirá-lo do "lado de fora" e trazê-lo para dentro de casa é trabalhoso, esteja o dia chuvoso ou ensolarado, frio ou quente seu lugar é lá fora. Dentro de casa nenhum desenho de TV lhe convence, sua alegria e seu brincar se concentram na música, nos jogos de montar, nos livros de história, nas brincadeiras com a irmã, poucos brinquedos lhe prende a atenção, ele se encanta mesmo com um pedaço de um galho de árvore, com o qual ele possa batucar por tudo, fazendo o que ele chama de "múdica", e que pra nós soa como felicidade. Como um menino do seu tempo, gosta de tecnologia e lida com ela de forma natural, o que parece meio estranho para minha geração que teve sua juventude longe disso, já nossos pequenos nasceram num mundo totalmente digital. Tentamos equilibrar tudo isso nessa corda bamba que é educar. 














Q

Acho que como pais, quase nada sabemos, não temos as "certezas" que gostaríamos de ter, estamos nessa juntos, descobrindo que mundo é esse e que jeito podemos viver bem nele, o que fazemos nos parece ser o melhor, por ora, pra agora, nesse momento, logo mais ali nem sabemos, nossas decisões são tomadas pensando no melhor, são decisões de amor e desejamos que nossos filhos também as tomem desse jeito, que o amor seja o maior e melhor exemplo, somos pai e mãe e também estamos aprendendo a caminhar, estamos tentando acertar o passo nesse descompasso que é viver. O mundo é bem maior do que a nossa casa, tem muita gente do lado de fora, nos deparamos com muitos desejos diferentes dos nossos, conviver com eles é nosso desafio, é assim que vamos nos somando no mundo. 






O mundo segue no seu igual, os dias com seus começos, a noite com os seus fins, eu, o marido, os filhos e os outros, vamos todos aprendendo juntos a ler o mundo, a ler as pessoas, mais por dentro do que por fora. Eu com a maternidade fui aprendendo a desaprender um pouco de mim, quando meus filhos chegaram eu estava mais pra dentro do que pra fora, até meio desacordada frente a algumas coisas que a vida nos propõe. No primeiro abraço que dei neles já acordei aquela menina-mulher que se fingia dormir dentro de mim, parece que nesse abraço eles meteram as mãos dentro da minha alma colocaram pra fora as linhas que podiam tecer o que eu acreditava ser educar e me disseram: olha só quanta costura e descostura tens pra fazer, falaram tudo isso num volume baixinho, numa estação só ouvida e entendida pela mãe que eu acabava de me tornar. Eu tinha mais duas vidas nas mãos, vidas querendo asas e me convidando a voar com elas. Eu e meu marido estávamos recebendo a nós mesmos dentro daqueles filhos: "o filho no filho, dentro do pai, o pai no pai dentro do filho, até que se coincidissem". Desde então tenho tido vontade de me alargar, me sentia no início. Parece que estou em outro degrau do mundo, talvez por isso, nada de talvez, É BEM POR ISSO que hoje me faço mais profunda, mais intensa, meu mínimo não basta mais, a vida é a mesma o olhar é outro, a pressa é outra, vejo a vida no seu devagar infantil, aquele jeito que só criança tem: O DE CORRER SEM PRESSA, O DE CORRER NÃO PRA CHEGAR MAIS LONGE, MAS PRA CHEGAR ONDE DESEJA. Criança sabe que não teremos repetição dessa merenda chamada vida, desse tempo chamado agora. 
Então vou eu no meio das minhas inquietações educando meus filhos e me "deseducando" do que preciso, vou desfazendo as amarras e tecendo tecido novo.


Talvez eu tenha misturado tantos sentimentos nesse texto que ele acabou falando demais de outras coisas: das importantes e das desimportantes, se é que o desimportante existe.




Grata sempre. Beijo meu!





3 comentários :

  1. Rosane, li atentamente teu texto e pra mim, nada mais forte do que um coração de mãe.; As mães sentem, tem algo especial e sabem o que é melhor pra eles. E ,até erramos,. mas tentando acertar. Assim, faz o que teu coração mandar e pedir e ele pediu que deixes o Enzo em casa , sem escolinha por enquanto! Tudo tem seu tempo e hora! Não precisa te estressar e uma coisa já deves ter percebido: pra dar palpites sempre temos gente por perto! HAJA! Adorei as fotos ele está lindo, feliz! beijos pra ti e todos vocês e bos sorte SEMPRE! chica

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  2. Rosane, lindo texto, deveria ser lido por todas as mães que assim como eu se preocupam com a educação dos filhos.
    Minha filha também não frequentou a pré-escola, fiz questão de começar a ensina-la em casa.É claro que nem sempre esta escolha vai surtir o mesmo efeito em todas as crianças, acho que depende muito do nosso empenho como mãe educadora. Hoje minha filha está no 8º ano e está indo bem.Não sei se ela seria a mesma pessoa que é hoje e nunca saberei, só sei que aquela foi a melhor escolha que fiz no momento, assim como você cita em seu texto.
    Penso que 12 anos da vida deles em aprendizado, obrigatório, já está de bom tamanho, isso sem falar da faculdade e cursos ao longo da vida.
    Adorei o trecho final: ...me "deseducando" do que preciso, vou desfazendo as amarras e tecendo tecido novo.
    Um linda semana pra vocês.
    Beijos

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  3. Amiga querida, realmente no final das contas o assunto ficou mesmo misturado e essa mistura ajudou-me a entender os motivos que te fizeram tiram o Enzo da escola - hehehehe!
    Enzo tem muito de ti e seguramente você fez bem em desmatriculá-lo (nem sei se escreve assim - hehehe).
    Quando minha mãe era criança, sua professora pediu para todos os alunos da classe desenharem um prato. Quando ele viu o desenho da minha mãe, disse severamente que estava errado, pois minha mãe tinha desenhado um prato fundo e não um prato raso - detalhe... ela não tinha feito nenhuma especificação sobre o desenho anteriormente.
    Resultado: minha mãe não conseguiu mais desenhar! Quando ela fez 45 anos, matriculou-se num curso de desenho e pintura e finalmente, após toda uma vida, ela conseguiu vencer esse bloqueio psicológico e sentimental e voltou a desenhar e pintar!
    Tenho muito medo de instituições e principalmente de educadores, pois saberemos quem são somente na prática. Lembrei-me da questão da "batata doce" que você nos contou no facebook!
    Acho que meu comentário também ficou meio misturado, mas vou me despedindo.
    Bjo grande
    Léia

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