MATERNIDADE





Sempre desejei ser mãe, mas eu não imaginava que seria algo tão TRANSFORMADOR na minha vida. Aconteceu quando tinha que acontecer, no tempo certo, na melhor hora. 
Depois de algumas tentativas de engravidar naturalmente e por fertilização in vitro, duas perdas, muita ansiedade, espera e dor, passei a entender que eu seria mãe por outra via. Tanta coisa aconteceu no meio desse temporal todo, tive que aprender a lidar com tantos sentimentos, alguns nunca antes vividos. Palavras foram proferidas como se fossem promessas, e hoje elas de nada valem, ou melhor, me ensinaram que algumas coisas que a gente diz não passam de nuvens que a ventania do tempo sopram pra bem longe.
Depois de um “vendaval”, decidimos, eu e meu marido, que iríamos adotar nossos filhos. Fizemos todo o processo, cabe aqui dizer que nada é fácil nesse percurso, muita burocracia, falta de bom senso, entre outras coisas que fazem a gente quase desistir. Não desistimos. Sabíamos que algo especial esperava por nós, que algo forte estava pra nos atravessar. Depois de três anos na fila de espera da adoção, de repente, quando estávamos viajando, numa sexta-feira a noite, atendi ao telefone depois de algumas frases de apresentação a pessoa falou : "vocês podem vir conhecer duas crianças, dois irmãos na segunda-feira?” E eu ouvi: NASCERAM, SEUS FILHOS NASCERAM, VOCÊS PODEM VIR BUSCÁ-LOS! Acertamos as coisas e ficou combinado que iríamos sim. 
Foi assim que recebemos a mais linda das notícias. Meu desejo de ser mãe estava se realizando. Era concreto e tão perto. Mal conseguia explicar para meu marido o que a assistente social tinha dito ao telefone, eu era uma mistura de riso e choro, de felicidade e emoção, eu lhe dizia: “são dois, são dois, uma menina e um menino”.
Pelo telefone fiquei sabendo que a menina era a mesma que eu havia conhecido numa casa lar há quase nove meses atrás (uma gestação). Eu tinha ido visitar essa casa no dia 26 de março de 2012 (o dia em que meu filho nasceu e eu nem imaginava) entre tantas crianças uma menina de dois anos e nove meses que havia acabado de chegar me chamou atenção. Ela estava assustada, arisca e triste. Tinha sido retirada de seus pais há algumas horas, sua “mãe” tinha ido para o hospital dar a luz a um menino. Lembro dela sentada num canto, um olhar dolorido. Depois, ouvi um choro, fui ver o que era, era ela. Perguntei a uma das “tias” se eu podia pegá-la no colo, sim foi a resposta e disse mais, que eu podia lhe dar mamadeira. A peguei no colo (choro de amor ao escrever) ela se aconchegou em meu ombro e lhe dei de mamar. Nós não sabíamos, mas eu estava dando de mamar para minha filha. 
Fui embora com a imagem daquela menina gravada dentro de mim, seu cheiro ficou na minha roupa. Em casa contei tudo ao meu marido e ele me disse: “que nome lindo tem nossa filha.”
Adormeci pensando nela e em seu irmão. Durante um tempo pensamos neles e os desejávamos tanto. O tempo passou, a vida seguiu e nós paramos de falar neles. Até que o telefonema, aquele que me referi anteriormente aconteceu. Na segunda-feira fomos conhecê-los. Os profissionais do local, foram buscar o menino (meu filho). Quando ele entrou na sala que estávamos ele deu um sorriso, a coisa mais linda que meus olhos já tinham visto, foi pro colo do meu marido, depois veio pro meu, seu sorriso ficou tão largo que cuspiu longe a chupeta. Eu acabava de abrir os braços para o MEU FILHO, a primeira vez que eu o pegava no colo, ele era tão pequeno, tinha quase nove meses mas havia nascido prematuramente, já tinha passado por uma cirurgia e quatro internações bem difíceis. Olhei nos seus olhos e naquele momento o amei tão intensamente. Senti um tremor, eu havia parido, estava amortecida, o amor teceu. 
Acompanhados pela assistente social, fomos ver a menina que estava na Escolinha, chegamos lá e brincamos com ela, nunca vou esquecer dela penteando meu cabelos. Era ela, aquela a quem eu havia dado de mamar. 
Fomos embora, chorando, rindo, falando sobre eles. 
Ainda entrevistariam mais um casal, antes de nós foram entrevistados dezessete, nenhum os quis, eles poderiam ter entrevistado mil e não daria, porque eles eram nossos filhos e conosco é que iriam embora dali. 
Na terça-feira o Juiz da Infância e Juventude nos ligou: “ vocês foram os escolhidos, podem vir busca-los amanhã às nove horas da manhã?” Eu quase não conseguia falar, chorava, tremia, andava de um lado para o outro, respondi que sim, que aquele era o nascimento que eu esperava. Liguei para meu marido, chorando lhe disse: AMANHÃ VAMOS BUSCAR NOSSOS FILHOS, ele chorou e não respondeu nada, quando chegou em casa nosso abraço demorado e as nossas lágrimas nos batizaram como pais. Ligamos para a família e para amigos queridos. A partir desse momento foi uma correria, montamos dois quartos em menos de 12 horas, roupinhas, brinquedos, fraldas, mamadeira. Fomos dormir às 4 horas da manhã e acordamos às 6. Dormir? Quem conseguiria? Mal nos contínhamos de tanta felicidade e tanto amor. Lembro de ter colocado um vestido longo, me arrumado com cuidado para buscar meus filhos, acho que a gente faz isso quando vai fazer algo realmente importante.  
Do que será que nossa filha vai nos chamar: tio, tia? Como será que eles reagirão? Dúvidas e certezas se confundiam. Chegamos lá e nossa pequena nos esperava na porta, nunca, jamais, em tempo algum irei esquecer esse momento, ela correu para dentro gritando: “CHEGOU MINHA MÃE, CHEGOU MINHA MÃE!” Eu quase morri, tive que me conter e ir ao seu encontro, nos abraçamos e eu pensava: PARI, ELA NASCEU! 
Com sacolas prontas para partir conosco ela nos dizia: “Vamos pegar o mano, vamos pegar o meu mano!”  Ele era sorrisos, estava tão lindo, o peguei no colo e pensei de novo: PARI, ELE NASCEU! Fomos pra casa, agora éramos quatro. Assim começou nossa melhor história. Nascemos uns para os outros. Nascemos todos! 
Foi parto com dor da espera.
Eles não chegaram sozinhos, havia uma história com eles, havia a deles e a nossa, havia os teus e os meus  que precisavam se transformar em nossos e em nós. 
O jeito foi misturar as vidas: as nossas e as deles, sem desrespeito aquilo que foi vivido até esse encontro, acreditávamos que eles não precisavam se curar de nada e nós tão pouco, era só um novo começo e ninguém precisava se curar de ninguém.
Guardávamos sótãos inteiros de amor guardado só esperando pra viver.
Somos tão gratos, a essa chegada-nascimento, foi como se disséssemos sim para a vida e déssemos permissão para ela continuar nesse fluxo lindo. 
Foi e é imenso, nunca havia sentido um amor desse tamanho, dessa largura e dessa profundidade, Enzo e Raquel são os meus melhores sentimentos, a minha melhor história, a melhor parte de tudo o que já vivi!