Nosso Tempo e Nossa Massinha de Modelar



8 de outubro de 2019






Tempo, tempo, tempo, tempo, sem dúvida o bem mais precioso da atualidade, sentar, parar, olhar olho no olho, escutar, conversar, ficar em silêncio se for preciso, brincar, fazer morada no outro, colocar reparo na vida e em tudo o que nos rodeia.
Me dei conta, a tempo, de que o tempo com os meus é o que de melhor posso dar a eles.
Um tempo em que de verdade estejamos juntos, em sintonia e conexão. Sem correria ou pressa e muito menos em busca de resultados, apensa JUNTOS.
Tempo também é escolha, nós temos condições de dominá-lo de alguma forma, na verdade nós que damos ritmo e rumo a ela, cada um do seu jeito e dentro das suas possibilidades, mas ainda assim escolhemos o que fazer com ele.

Uma vez me disseram que eu era uma "mãe pinterest" e "com tempo". Na época só entendi a parte do "com tempo", a pesar de saber que meu tempo não é privilégio, mas conquista diária. Só mais tarde soube que usavam essa expressão de "mãe pinterest" para nomear uma mãe que fazia trabalhos manuais com os filhos. Não sou uma mãe pinterest, sou mãe, sou mulher, sou artista, sou curiosa e amo fazer coisas manuais e caseirices, com os meus ou sozinha. Não quero essa carga que a tal "mãe pinterest" tem em fazer tudo perfeito, quero o prazer de fazer e criar com quem amo, sem compromisso com o acerto.

Então, fizemos mais uma vez nossa própria massa de modelar, sem pressa, sem acordo com a perfeição, mas com o desejo e a vontade de dar certo e nos divertirmos, e ainda mais: com a vontade de ficar pero da natureza e criar com seus elementos. Desta vez testamos uma massa que vai ao fogo e o resultado ficou muito bacana. Também usamos os pigmentos naturais com plantas, flores, pós... como já fizemos outras vezes.


      



                                         


Fizemos nossos corantes à base de plantas, vegetais cozidos, etc. Usamos a água tingida no lugar da água comum que vais na receita da massinha. O objetivo é manter o processo simples e sustentável. Ao invés de comprar os ingredientes os criamos.

RECEITA:

Ingredientes para os corantes naturais:
Duas xícaras de água para cada cor
ROSA: meia xícara de beterraba picada ou ralada
VERDE ESCURO: uma colher de spirulina
VERDE CLARO: um punhado de espinafre (depois de fervido, esmague ou macere bem antes de coar)
AMARELO: uma colher de sopa de açafrão em pó
AMARELO BEM CLARINHO: um punhado de flores de ipê amarelo
AZUL: uma xícara de repolho roxo
MARROM: café preto passado

E por aí a fora, pode-se criar uma gama enorme de cores conforme sua criatividade.

Preparo dos corantes:

Coloque a água numa panela e conforme a cor adicionar os ingredientes citados anteriormente. Deixe ferver um pouco e retire do fogo e deixe esfriar.
No caso da cor marrom use o café coado, se quiser vários tons de marrons (tons de pele) faça um café bem forte, outro com mais água e assim por diante. Se misturar a borra também fica uma massinha bem bonita cheia de pontinhos escuros.
Coe a água das fervuras reserve os corantes líquidos para a receita da massa de modelar.

Preparo da massinha:

Em uma panela misture uma xícara de farinha branca, meia xícara de sal branco, duas colheres de chá de creme de tártaro, uma colher de sopa de azeite e uma xícara do corante já feito (coloque aos poucos, pode precisar de menos ou de mais), misture bem até que os ingredientes estejam bem homogêneos. Coloque a panela no fogão em fogo médio e cozinhe a massa. Mexa sempre até que ela comece a se afastar das bordas da panela. Retire a panela do fogo e deixe a massa esfriar por alguns minutos; depois retire a massa da panela, coloque-a em uma bancada e amasse até obter uma textura lisa e uniforme, se quiser acrescente algumas gotas de óleo essencial, fica maravilhoso!

Agora divirta-se, invente, crie, faça o que quiser com elas, aproveite o tempo.

Para armazená-las guarde-as em potes hermeticamente fechados longe do calor, geralmente elas duram por volta de um mês.
























Temos tentado viver de uma forma mais lenta, longe de tantos compromissos e eventos, temos tentado achar nossa própria medida de tempo. Nem sempre a gente consegue, mas muitas vezes sim e tem sido muito bom.






Depois e durante a feitura da massinha tivemos companhia canina, eles participaram do processo, e a Cacau queria comer a mistura, principalmente a do café. 






Depois das feituras brincar, se rolar, pular, correr, viver...






Sempre me "alimentei" (corpo e espírito) da natureza, ela sempre foi meu melhor lugar no mundo, mas depois da chegada dos filhos isso se agigantou ainda mais.












Agradeço tanto por ter esse tempo, ou por fazer ele existir, porque o tempo tem disso também: a gente o faz, ou talvez a gente o escolha..








Feliz em escrever aqui, no meu tempo. Obrigada pela acolhida!



Rosane Castilhos


Cozinha, lugar sagrado - Receitas



4 de outubro de 2019




Oi gente, estou tão feliz em ter voltado para o blog que as postagens estão aflorando com fluidez, sem dias marcados ou datas específicas, elas têm nascido naturalmente.







As vezes passo um turno inteiro  na cozinha, e o melhor de tudo: com muito prazer! Ora com os filhos e o marido, ora sozinha, gosto das duas formas, depende o dia.

Cozinha é lugar sagrado aqui em casa, todo mundo mora nela longas horas. Eu amo cozinhar, cresci no meio de receitas e fazeres da minha mãe (a melhor cozinheira do mundo). Acho que só a arte vem antes do cozinhar entre as coisas que amo fazer como ofício-amor. 
Faço de tudo: almoço, lanche, bolo... e tem dias que faço coisas mais especiais ou mais "demoradas", organizo os grão e os cereais, esterilizo os vidros para as conservas, higienizo as tábuas de corte (outro dia conto como). 
Se o turno fora a tarde, passo um café para mim e para o Enzo. Ele entra e saia da cozinha, me ajuda, sai de novo, brinca lá fora, corre e chama: manheeee, e lá vou eu, entre filho e cozinha. Corro com ele e com a cachorrada-amor, volto, faço mais alguma coisa, depois ele chama de novo, eu beijo, acolho, dou bronca. E assim a tarde que escolhemos cozinhar acontece. 
O dia passa, sem perfeição e facilidades, tudo são conquistas, sem grandes eventos.

Ontem o frio voltou em pleno outubro, depois veio a chuva e tivemos que nos recolher, nossas tardes dentro de casa passam mais lentas, estudamos, brincamos, assistimos um filme e quase sempre vamos para a cozinha, isso acontece nas manhãs também, daí temos a presença da filha, que ama fazer parte dessas coisas. 

Nas tardes durante a semana, geralmente, passamos só eu e o filho, depois a Raquel chega e os dois se põe a brincar, surgem conflitos, mas a paz e o amor quase sempre prevalecem. Depois o marido-pai chega e assume a limpeza das feituras na cozinha, ainda bem, porque se não for desse jeito não conseguimos fazer tudo o que gostamos de fazer.

Hoje quero contar das nossas feituras com essa fruta incrível: o coco.
Fazemos leite de coco, coco ralado e farinha de coco, tudo em um só processo, e ainda dá para fazer a gordura. Essas receitas mudam a vida da gente, acreditem! Saudável, sem açúcar ou conservantes, e muito mais em conta do que se pagaria num mercado.

Eu amo coco, além de ser um  super alimento é saudável. 
O coco é muito rico em duas gorduras: o ácido láurico e o monolauril. Essas gorduras são de rápida digestão, ao contrário de outras, não ficam depositadas nas células, e servem de combustível para o nosso organismo gerando energia.
Com a gordura ou o óleo de coco, fazemos cremes, xampu em barra e sabão, entre outras coisinhas, mais uma promessa: outro dia conto como. 

Bom chega de história e vamos as receitas.

Leite de coco: quebrar um coco seco (cada um tem seu método), tirar toda a polpa, deixar os pedaços de molho em água morna por cinco minutos (700 ml de água se o coco for de tamanho grande e 500 ml se o coco for de tamanho médio para pequeno), depois liquidificar por uns 3 minutos o coco com a água do molho. Coar todo o líquido, eu prefiro fazer isso num saco de algodão cru, mas pode ser feito em um coador. Depois de bem escorrido, guarde o líquido em garrafas e pode armazenar na geladeira de quatro a cinco dias, dá pra consumir como um leite delicioso e sem lactose ou em receitas que você queira. Pode ser congelado se desejar, nunca congelei, mas sei que pode.








    A polpa que sobra pode ser usada em inúmeras receitas, assim como o coco ralado que se compra no supermercado, só que com a vantagem de ser fresco, natural, sem adição de nenhum outro ingrediente químico ou manipulado, é alimento vivo!
    Já fiz biscoitos, recheios de bolo, docinhos, farofa, bolo e iogurte com essa polpa (outro dia mostro aqui).






    Dá pra fazer a  farinha de coco e  usar em tudo: bolos, pães, doces, biscoitos, panquecas, comer com frutas, com iogurte e tudo o que você puder imaginar. Super simples gente, é só colocar essa polpa numa frigideira ou panela grande e mexer por uns vinte minutos, deixar esfriar e armazenar, ela dura uns três meses fora da geladeira. Eu gosto de usá-la grossa, mas se preferir depois de cozinhá-la pode passar tudo num processador e ela ficará mais fina ou com a textura que quiser. 
    A minha ficou assim, nessa foto coloquei-a dentro da casca do coco e servi na mesa com iogurte, achei que ficou linda.







    E tem mais, as cascas depois podem virar brinquedos e instrumentos musicais!!

    Ó só que maravilha, com um coco que em média custa quatro a cinco reais a gente fez tudo isso.
    A farinha de coco no mercado é bem cara e não podemos jurar sem cruzar os dedos que ela realmente seja pura, já a que fazemos em casa temos certeza de sua pureza e mais que isso, ela carrega a etiqueta de: EU, VOCÊ, NÓS FIZEMOS. 

    Por aqui usamos verduras, frutas, legumes, grãos e outros produtos orgânicos, mas isso não é regra e nem obrigação de ninguém. Consumir orgânicos é super bacana, mas dá para priorizar de maneira sábia o que realmente vale a pena ser consumido na rede dos orgânicos, nãos poderíamos "elitizar" a alimentação, os orgânicos são sem dúvida a melhor ótima opção, mas infelizmente ainda é mais caro,  nem tudo pode ser orgânico para a maioria da população devido ao seu valor. Por aqui fazemos a lei da compensação, compramos orgânicos, por outro lado não gastamos em um monte de outras coisas que achamos supérfluo, mas é uma escolha nossa e não cabe  exigir que todos pensem como a gente!

    No mais a vida segue e tem muitos caminhos para se encontrar uma alimentação saudável, afetiva e feliz. 



    Abraço meu com uma felicidade gigante de estar de volta a esse lugar.



    Rosane Castilhos

    Pão-Amor (receita)





    2 de outubro de 2019





    Por aqui fazer pão é coisa sagrada, dessas que assumem um caráter de ritual da família, vira memória em textura, cheiro, cor e sabor, além de muito afeto. Trago todas essas lembranças da minha infância, sempre via minha mãe fazer pão, espera chegar os sábados (dia de faxina e pães caseiros). A casa tinha um aroma de cera em pasta que era passada no chão e de pão que assava no forno, nunca, em tempo algum esqueci desses cheiros, espero que eles fiquem vivos em mim para sempre.
    Então memória afetiva com essa força toda fez morada em mim o desejo de fazer pão também, fazia antes de casar, junto da minha mãe, depois de casada e de ter minha própria casa continuei fazendo, e até aperfeiçoei, hoje além dos pães que aprendo com a minha mãe faço outros e também os de fermentação natural.
    E mais que isso, hoje em dia tenho mais mãozinhas na massa do que antes e isso enriquece os pães e a nossa vida.

    Penso que tudo isso também é uma forma de revolução, das mais amorosas do mundo. estar presente, fazer coisas que se ama fazer, ser o que se quer ser. estar no lugar que se quer estar, sem atravessamentos ou atravessadores, sem culpa, sem preocupações se estávamos mudando o mundo todo, porque estávamos criando um mundo bom ali, entre a gente, edificando emoções, aprendendo juntos, descobrindo um novo jeito de comer pão (uma combinação ainda não experimentada). sabemos que tudo isso se refletirá em algum tempo, lugar e vidas. estamos mudando tantas coisas, transformando outras.
    Enfim, eu sou muito feliz em poder observar e estar presente na vida dos meus filhos dessa forma, seja fazendo pão ou lhes ensinando filosofia, música, arte. ou ainda lendo livros, escrevendo o meu, pintando minhas ilustrações. nenhuma coisa anula a outra. me assusta um pouco algumas pessoas acreditarem que sim.
    SOMOS MUITOS.  O preconceito que existe em torno de pessoas que escolhem viver dessa forma nos afasta. Lugar de mulher, homem e criança é onde eles quiserem. Ora dando palestra, ora estendendo roupas, ora cuidando dos filhos (se tiver), ora cuidando de si mesma, ora brincando, ora descansando, ora passeando, ora dentro de casa, ora fora, ora fazendo pão, ora fazendo revolução.














    Olha para essa massa crescendo e sempre enxergo tanta coisa nela, uma vez minha filha disse que parecia um planeta...




    Hoje vou compartilhar a nossa receita de pão com farinha branca e de fermentação química, não é o meu mais amado, mas é o queridinho da turma daqui. Essa receita é da nossa família, da minha mãe, é o mesmo pão que eu fazia quando era pequena, mas naquela época usava açúcar cristal comum e sal branco.

    Ingredientes:
    1 k de farinha de trigo, 1 colher bem cheia de fermento biológico seco, 1 colher de sopa de açúcar (eu uso o demerara ou o mascavo), 1 colher de chá de sal (uso o do himalaia), leite o suficiente para dar o ponto (em média de 300 a 400ml), 1 colher de gordura (eu uso banha ou manteiga, mas pode ser azeite, óleo de coco ou outro óleo), 1 colher de creme de leite fresco, por aqui chamamos de nata (opcional).


    Preparo:
    Coloque a farinha num recipiente grande, misture bem o fermento, o açúcar e o sal, depois a colher de gordura e a nata, coloque o leite esquentar (não ferver) e o acrescente aos poucos na massa, sovando-a ainda dentro do recipiente. Quando ela estiver num ponto que desgrude dos dedos, mas não dura, passe para uma bancada e MÃO NA MASSA!! O segredo para o pão ficar macio é sová-lo bem. 
    Depois disso coloque a massa de volta no recipiente, cubra com algo que a mantenha aquecida. Deixe descansar e crescer por mais ou menos uma hora e meia a duas horas. Sove a massa de novo, mas por menos tempo e com delicadeza, forme os pães e coloque-os em formas untadas. Costumamos i com um pouco de farinha, mas isso é por que achamos que eles ficam ainda mais bonitos!
    Espero que acertem e gostem, qualquer coisa me perguntem.

    Outro dia vou colocar aqui a receita do pão integral e depois dos de fermentação natural.

    Até mais gente!









    Muito feliz em escrever nesse lugar que é minha morada da escrita para o mundo.

    Rosane Castilhos

    Desejo de Retornar





    30 de setembro de 2019





    Tenho sentido a necessidade e o desejo de andar mais devagar.
    Alguém lembra quando precisávamos ir até o local de trabalho para começarmos a trabalharOu quando a gente não era encontrada a qualquer hora do dia? Lembram dos correios, das cartas escritas a mão? de quando se conversava e até se fazia amigos numa fila de espera ou numa sala de um consultório?
    A gente se olhava mais, percebia o outro com mais clareza e interesse. Nosso olhar não era atravessado por um dispositivo ou pelos ecrãs. 
    Tenho sentido muita falta desse tempo mais lento e de alguma forma mais silencioso, por isso volto a escrever nesse lugar que foi onde iniciei minha jornada no mundo virtual e onde conheci pessoas que já fazem parte da minha vida há onze anos. 

    Nada contra ao facilitismo da modernidade, dos aplicativos, do bilhete on-line, do Uber, do WhatsApp e do email no telefone, mas eu tenho sentido um desejo gigante de uma vida com mais entrega ao tempo onde a gente fica, permanece de uma forma menos efêmera. 
    Do tempo em que a gente escrevia cartas de amor e saudade e enviava pelo correio aquele papel que podia até ter marcas de lágrimas, não é só saudade, é desejo de viver de forma mais vivida.
    Gosto de verdade de fotos sem edições ou filtros, de uma boa realidade do que somos, de uma conversa sem intenção de curtidas. Não há filtro sobre as memórias que repousam intactas nos álbuns da nossa vida. Tenho sentido saudade de um tempo que não se expunha a vida de forma tão escancarada, de um tempo em que algumas vivências eram sagradas. 

    Todas essas coisas e sentimentos marcam mais do que um tempo ou um momento,marcam uma realidade que nem sempre é registrada numa imagem e que o sentimento não tem delete, que a imagem não tem uma infinidade de chances de ser filtrada. 
    Saramago já prenunciava esse tempo e disse: “Jamais uma lágrima manchará um email.” 

    É por tudo isso que retorno, regresso e a partir de hoje esse será o meu único canal com esse mundo virtual-real. 
    Quero escrever e contar das receitas que fazemos, da nossa horta e do nosso pomar, das feituras que realizamos num tempo que podemos olhar uns nos olhos dos outros sem um dispositivo registrando tudo e confesso que sinto um enorme bem estar, um alívio até, em ter saído do instagram recentemente e do facebook há anos atrás. Não há nada de errado com essas redes sociais, fiz muitos amigos nelas, mas eu preciso e quero experimentar a vida sem tanta efemeridade, talvez eu retorne, não sei ainda, mas por agora quero viver cada momento da vida sem essa pressa que esses canais "exigem".
    Te faço um convite: reativa teu blog, vamos nos reencontrar aqui, num tempo e num lugar que tudo pode ser mais devagar e mais humano. 

    Te espero, muitas coisas acontecerão por aqui, com alma, com entrega e de verdade.


    Rosane Castilhos




    Oi filha, eu estou te vendo




             22 de fevereiro de 2018






    Oi meu amor.
    Eu estou te vendo, te observando, te escutando, te cuidando mesmo que as vezes minha manifestação mais viva e intensa esteja meio desnorteada.
    Tanta coisa aconteceu desde que vocês chegaram que eu nem me lembro como eu era da última vez que estive sem tê-los. Tantas mudanças, tantos devaneios e retomadas de consciência fizeram e fazem parte dessa montanha russa chamada maternidade.
    As vezes pareço imersa nos estudos e nas minhas pesquisas sobre o comportamento do seu irmão e de como amenizar "as diferenças", pareço completamente imersa na vida dele, e de verdade estou, mas meu mergulho na sua vida é real e intenso também, talvez no seu mar eu suba mais a superfície, talvez o meu mergulho em ti seja mais fácil ou menos profundo, mas nunca menos amoroso.




    Teu irmão te ama tanto, vocês se amam tanto, as vezes fico olhando vocês dois juntos e choro de amor, imagino que não seja fácil pra ti entender que as vezes precisamos sair antes do previsto de um evento porque seu irmão já não tolera mais ficar ali, mesmo assim tu diz SIM e vocês saem juntos, de mãos dadas, porque ele nem imagina te deixar. Eu e seu pai estamos aprendendo a mergulhar no oceano do Enzo, tu já é um peixinho, ele te abraça, faz onda-amor pra te ver nadar junto dele. Obrigada minha filha por tanto amor. 
    Eu? Ora estou aqui na superfície, ora estou no fundo do mar das nossas vidas aprendendo sobre nossa existência e tentando trazer a tona tudo de bom que esse mundo nos dá, da mesma forma que tento enfrentar as coisas ruins que surgem porque fazem parte da nossa condição humana.
    Nossa vida é tão bonita, somos tão felizes, nos amamos tanto.
    Sei bem que as vezes travo uma luta interna e fico meio longe, me deixo levar pela turbulência do mar. Eu sei que cada braçada dada vale a pena, que enfrentar a onda é muito melhor do que deixar que ela me leve, no entanto as vezes preciso ir, sem braçada alguma, só ir... pra depois voltar.  Eu que me acho emocionalmente independente do que os outros pensam e julgam a meu respeito, as vezes, me percebo dando crédito a julgamentos tolos que só fazem doer no peito,  fico desatenta de ti porque me perco nesse devaneio de mudar o mundo conforme o que acredito. Se eu não aprendi, quero muito que tu aprenda: aos outros só podemos levar amor e as mudanças que achamos necessárias se darão a partir desse amor que reverbera e contagia.
    Eu, mãe, sempre encho a boca para falar a palavra liberdade, mas exijo sempre que sejam super educados. Sabe de uma coisa: nem sempre dá pra ser, as vezes, só as vezes (risos) a falta de educação nos salva de alguns caldos, de algumas ondas que nos derrubam porque preferimos ser educados como "a mãe e o pai nos ensinaram", ou ainda "como a mãe e pai esperam que a gente seja", na verdade a liberdade mais linda é aquela quando olhamos para nossos filhos e os vemos como outros e não como uma cópia de nóse a pesar das diferenças e por causa delas amá-los mais que tudo. 
    Vou tentar não planejar tudo, viver sem tantas preocupações, sem tantos métodos, vou tentar apenas estar ali de corpo e alma e desfrutar a vida junto contigo de forma mais intensa, porque tu recarrega minha energia e me potencializa como mãe, eu escuto muito a voz da minha infância em ti, dou importância ao que a menina que mora dentro de mim me diz, e ela salta de felicidade, faz meu peito vibrar, me movimenta pra estar mais presente e mais brincante contigo. Mas é preciso que saiba, há uma essência em mim que não pode ser iludida ou mascarada, sou essencialmente estudiosa, intensa, mergulho de cabeça no que acho que preciso mergulhar, mas eu volto filha, sem mentiras, sem desculpas, porque se não for desse jeito estarei enganando a mim mesma e estarei mentindo pra vocês e não conheço ninguém que tenha conseguido criar filhos felizes vivendo uma mentira. 
    Então, eu prometo estar mais no presente, vivendo cada minuto com entrega, mas as vezes preciso ir lá no fundo, trancar o ar, me esvaziar pra poder voltar a superfície com força, coragem e o mesmo amor de sempre.
    Te prometo perder menos tempo com essa mania pretensiosa de mudar aquilo que, por ora, não pode ser mudado, faço isso por acreditar ser essa a via de construção de um mundo melhor pra ti, pro teu irmão, pra todos. Talvez eu faça isso por medo de estar longe no "futuro", fico achando que posso deixar o terreno pronto, sem torrões de dor que são difíceis de arrancar, fico nessa tentativa tola de deixar o mar calmo, de segurar os maremotos que poderão surgir mais tarde. Eu prometo gastar esse tempo e essa energia mais no presente do que num futuro imaginado, porque é o aqui e o agora que poderá garantir pra vocês um ali e lá mais feliz. Não posso te prometer um mar tranquilo, mas prometo me jogar menos na água turbulenta, vou enfrentar só as ondas que nos impulsionarem para uma maré bonita.




    Filha estou aqui, sempre estive, mesmo que eu pareça distante (e algumas vezes estou) quero que saiba que um pedaço meu sempre fica perto de ti. Eu nasci pra estar contigo, nos encontramos pra isso. Teu irmão, talvez precise mais de mim (esse talvez é carregado de dúvidas, eu mãe acho que seja assim, mas pode ser que não, pode ser que tu precise muito mais de mim, mas entenda, as mães erram descaradamente achando que estão certas, a gente tem essa coisa do "sentir"), então repito o que não tenho certeza, mas por ora sinto: TALVEZ teu irmão precise mais de mim, por isso olho tanto pra ele, mas meu olhar é teu também, sempre foi. Tu não é um capítulo, tu é o livro todo, tu não é uma onda, tu é também um oceano e eu mergulho em ti com todo o amor que carrego no meu peito desde o dia que tu correu para os meus braços gritando: "chegou minha mãe!". Te amo.


    Sua Mãe



    Gratidão (nascimento - chegada - pertencimento - graça)




    Hoje faz quatro anos que nascemos uns para os outros.

    Foi parto com dor da espera, sem líquido de placenta, mas foi água-vida tanta que hidratou a secura de todos nós.
    Eles não chegaram sozinhos, havia uma história com eles, havia a deles e a nossa, havia os "teus-meus" que precisavam se transformar em nossos e em nós: nós e todos os outros. A filha trazia fragmentos de uma lembrança aqui outra acolá, o jeito foi misturar as vidas: as nossas e as deles, sem desrespeito aquilo que foi vivido até esse encontro, ao contrário de muitos, sempre acreditamos que eles não precisavam se curar de nada e nós tão pouco, era só um novo começo e ninguém precisava se curar de ninguém. Deixávamos ela falar sobre tudo o que tinha vivido até ali, o que nos preocupava era o silêncio, pois a mudez guarda sótãos inteiros, ela tinha só três anos e meio e já  tinha vivido tantas tristezas, parecia ignorar todas elas e com sua voz de menina-bebe disse ao juiz: "a partir de agora é pai novo, mãe nova, vida nova" e disse isso feliz, nós sabíamos que apesar da sua fala a vida de todos que ela havia convivido até ali corriam dentro dela, desordenadamente, mas corriam. Ele tinha apenas oito meses e suas pequenas-grandes vivências foram de dor, mas ele soube ser tão resiliente e tão feliz, ainda é.
    Somos tão gratos a chegada-nascimento, foi como se disséssemos sim para a vida e déssemos permissão para ela continuar nesse fluxo lindo que é o fluxo do amor. Um amor de verdade, do fundo da alma e do peito, um amor livre que se permite errar e ser perdoado, porque mesmo o amor ignora uma imensidão de coisas. 

    Ser grato ao amor e alargá-lo pelos quatro cantos do mundo todos os dias em pequenas ações, nos fortalece, nos une, não temos pudor nenhum em gritar que somos gratos pelo nosso encontro, que somos melhores depois dele, é coisa escrita, não tem jeito, não costumamos guardar momento de felicidade, ao guardá-lo corremos o risco de estreitá-lo, gostamos todos nós da imensidão, do agigantamento e da força que um sentimento bom pode ter, não somos do tipo que vai vivendo aos poucos, gostamos mesmo é da intensidade de tudo. Vivemos a hora da felicidade com entrega e já fabricando a outra que pode ser ainda mais feliz ou não. Como dizemos por aqui: comemos a vida com gosto e fome e arquivamos as coisas na memória. O nosso nascimento-chegada-pertencimento-graça é até agora o que vivemos de maior, num descuido nos descobrimos mais completos, sentimentos como zelo, afeto, perdão, compaixão, liberdade e respeito têm nos norteado nesse caminho lindo e difícil de ser pai, mãe e filhos, não sabemos um mundo de coisas, muitas delas nem cabem nas nossas vivências.

    O amor é parceiro inseparável de todos os dias, é ele que acalma os ânimos do descontentamento, da raiva, da dúvida e do cansaço. Quando tudo dá errado (temos muitos dias assim), recorremos ao amor, ele é remédio que cura, e nem sempre tem gosto doce, o amor as vezes parece bem azedo, mas precisa ser engolido e só lá na frente entenderemos o porquê do azedume, já a cura não se trata de felicidade dia e noite, é felicidade sofrida, conquistada, trabalhada diariamente numa infância livre, numa alimentação saudável, no respeito ao mundo e toda a sua diversidade, na educação libertadora, no contato mais de perto com o que é espiritual, no contato mais de longe com o que é material, no amor pela natureza e todas as suas espécies, no amor pelo outro, é perrengue todos os dias, as vezes não consigo se quer atender um telefonema, muitas vezes fomos dormir as duas da madrugada e acordamos as seis, já fiquei horas segurando os olhos abertos só porque a filha me contava uma coisa julgada por ela de extrema importância, já revezamos a guarda numa noite de febre, já ficamos os dois acordados zelando pela melhora de uma infecção de garganta, já enfrentamos gentes que nos chamam de “caridosos”, deixamos de sair inúmeras vezes para ficar com eles, já escutamos tanta bobagem em nome do “só quero ajudar”, já tivemos que explicar uma, duas, três, dez vezes que eles são nossos filhos e que chegar também é nascer,   já choramos incontáveis vezes nesses quatro anos, choramos de doçura e de azedume, de alegria e de medo.   

    Somos basicamente felizes, mas não ignoramos a infelicidade do outro, todos os dias buscamos evoluir em cada coisa dita, feita e vivida, não seguimos alheios ao desamor, ao descontentamento e a desesperança do mundo, porém em alguns casos construímos muros mais altos, criamos rios e margens, evitamos os cantos muito escuros, mas se for preciso enfrentamos e mostramos aos filhos que eles existem. Descobrimos nesse processo de educar que para mantermos mais saudáveis nossas emoções, precisamos de um certo distanciamento de algumas coisas, pelo menos até eles terem certeza em qual lugar no mundo eles querem estar, nós pais por ora queremos estar ao lado deles, viver cada dia sem correr para o dia seguinte, sem pressa que lhes chegue a adultez, cada instante com eles é grande tanto, é tão bom e tão desafiador, cada vez que abraço meus filhos sinto o amor latejando entre nós, imaginem isso vivido intensamente durante quatro anos, é gratidão. 

    Acredito que sempre precisamos de um outro para irmos além de nós mesmos, foi isso que nossos filhos fizeram: nós levaram além.

    Somos imensamente gratos por tudo o que temos vivido, a mansidão e as turbulências, as certezas e as dúvidas... um sentimento completando o outro.

    Nossa gratidão é um recado de amor escrito a quatro mãos (e outras tantas) para Deus, para o universo, para a vida passada e futura.






    Escolhas



    Querer criar galinhas no quintal de casa, fazer seus próprios brinquedos, seu alimento, fazer festa de aniversário infantil com bolo integral, frutas, sem refrigerantes e sem balas, bandeirinhas pelo quintal, com gente de pés descalços, sem presente algum, trazendo nas mãos apenas a vontade de estar junto. Nenhuma menina vestida de mini adulta ou de "princesa da Disney", nenhum menino com a roupa do homem de ferro ou armas de brinquedo, as fantasias todas feitas a mão e por eles mesmos. O parabéns pra você cantado em uma dança circular com o aniversariante e sua família ao centro da roda recebendo todo o afeto direcionado a eles, os adultos sem preocupações de que as crianças se machucassem nos brinquedos modernos (eles não existiriam nessa festa), a brincadeira construída: corrida do saco, bolha de sabão, caça ao tesouro, esconde esconde, amarelinha, pega pega, pintura, modelagem, cantos e danças. Sem lembrancinhas com balas, doces e brinquedos, a lembrança poderia ser algo construído pelo aniversariante, ou: nada, a não ser um abraço caloroso e a memória afetiva daquele momento. Nenhuma monitora responsável pela maquiagem ou pintura nas unhas das meninas, as meninas com roupas confortáveis e de criança para subirem nas árvores ou correr, correr e correr.




    Acredito num mundo onde as crianças pareçam crianças, se sujem, brinquem, corram, pulem, subam em árvores, se machuquem, consigam passar uma tarde brincando juntas sem celulares e sem brinquedos eletrônicos, crianças capazes de suportarem as frustrações sem ganhar nada em troca por conta disso, acredito numa escola que não ofereça recompensas (pirulitos, balas, brindes) só por que a criança fez o deveria ter feito, creio num mundo onde os pais tratam as crianças como crianças sem se preocuparem precocemente com o vestibular que seus filhos farão, "ninguém nasce pra fazer vestibular, a gente nasce pra ser feliz" (filme Tarja Branca), claro que quero que meus filhos e todas as crianças do mundo cheguem a universidade, o conhecimento adquirido é importante e transformador. Acredito numa educação e numa pedagogia holística em um dos mais amplos sentidos que se pode dar a essa palavra. Desenvolver desde criança os pontos de vista:  físico, anímico e espiritual, de forma progressiva e afetiva, cultivando o AGIR, o SENTIR e o  PENSAR, explorando o sensorial, o emocional e o pensamento concreto, para mais tarde explorar com facilidade o abstrato. Viver e sentir para depois pensar sobre o que se viveu e sentiu.




    Conversando com a mãe de uma colega da minha filha ela me disse: "vocês ainda não foram para a Disney com essas crianças menina, tão esperando o quê?? daqui a pouco é tarde, eles vão perder o encanto pelas princesas, pelos personagens, vai ficar tudo mais chato, por favor, providencia isso, principalmente para a Raquel, ela é uma menina, vai enlouquecer com o castelo, tu vai ver como ela vai ser mais feliz..." Eu educadamente (as vezes queria ser menos) lhe respondi que tinha entendido sua opinião se ela não tivesse acrescentado que minha filha "seria mais feliz" se fosse para a Disney, lhe disse também que eu nunca tinha ido para a Disney e que meus pais mal sabiam que já existia o Mickey e toda a sua trupe, que eu nunca tive nenhuma das princesas e que nunca fui infeliz por isso, na verdade, do que eu gostava, quando criança, era de brincar de fazer comidinha de barro e mato com a minha irmã e de descer de carrinho de lomba com meus irmãos num morro que tinha perto da nossa casa. Ela ficou meio desconcertada, mas insistiu: "eram outros tempos Rosane, pelo amor de Deus, que criança ainda faz comidinha de barro?" Eu: as minhas!! Ela deu um sorriso amarelo e completou: "desisto de ti!" 
    Fiquei pensando se eu seria uma pessoa de se desistir, o que estaria atrás dessas palavras? 
    Claro que meus filhos não vivem apenas no meio do mato, nem tão pouco só brincam com barro e folhas, eles têm acesso a tecnologia sim, vamos em shopping (muito pouco), comemos bobagens (as vezes), eles conhecem os personagens da Disney (de passagem) e nem gostam muito deles, assistem TV (mais músicas do que filmes e desenhos), mas ainda não foram para a Disney, talvez irão, não sei, preferiria fazer uma safári na África ou explorar a Patagônia. Acontece que cada pai, mãe, vó, tia ou qualquer outro membro da família educa e pensa de um jeito, somos todos pensantes diferentes e não seria capaz de dizer a ninguém: "eu desisto de você".
    Acho que ninguém, ou quase ninguém, tem a intenção de educar uma criança para a infelicidade, o que ocorre é que temos conceitos diferentes da FELICIDADE.






    Oferecer aos filhos um punhado de galhos de árvores para que eles construam um material de contagem e de cores frente a tantas ofertas desse material no mercado, modelos lindos, incríveis, duradouros e coloridos parece coisa de "pais bicho grilos" e para os olhos de algumas pessoas seus filhos não evoluirão nesse mundo competitivo e rápido que é o nosso. Mas de verdade AGORA eu não penso muito em concorrências ou progresso, penso mesmo que é hora de aprender brincando, construindo e criando, e se puder fazer tudo isso sem prejudicar a vida na terra e suas espécies, muito melhor. Os elementos naturais trazem um lado sensorial maravilhoso para quem lida com eles, têm cheiro, textura, formas diferentes e são lindos, temos muito pelo nosso quintal e pomar, eu seria uma tola se não os explorasse. Fazemos nossa própria massa de modelar, com mais textura e mais cheirinho, só para exercitarmos os sentidos do corpo e da alma, construímos nossas fantasias e chapéus, alguns brinquedos e bolas, fizemos nosso próprio sabão para as bolinhas de espuma e não fazemos isso para "poupar dinheiro", se bem que isso também é importante e pensado, mas não é nosso primeiro impulso, o que esperamos com isso é que nossos filhos valorizem mais o fazer junto, o afeto e respeito que isso envolve. 






    A brincadeira preferida por aqui é se sujar nas poças de lama que se formam pelo pomar depois de um dia de chuva, o prato preferido não é o do fast food famoso, o lugar preferido é lá fora no meio das árvores e do lado da cachorrada se rolando no chão e dando beijo em todos, a viagem sonhada não é pra Disney, as vezes a viagem mais desejada é ir na casa da vó, essa sim tem um valor enorme e é capaz de nos deixar mais felizes, somos assim, em especial: eu sou assim, mas não julgo como errado o jeito que cada um escolhe para educar os seus, apenas acredito no que nós escolhemos, na verdade sem nenhuma certeza absoluta e imutável de que seja o melhor, por ora é esse o caminho que queremos caminhar, errando, acertando, experimentando e colocando REPARO NA VIDA, na nossa e na dos outros, todos os outros: humanos, animais, vegetais, enfim todas as espécies. Tentamos educar nossos filhos para um mundo de amor e de respeito, porque acreditamos no amor e no respeito.
     


     







    E muito diferente o que você sente do que a sociedade acha que você tem que sentir, o importante é olhar para dentro de si, sem tanta culpa, sem tantas amarras e apegos a aquilo que nem acreditamos.


    Grata pelo carinho, respeito e por vocês estarem aqui.


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